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O Design visto como uma mais-valia para o tecido empresarial

1 - Como vê o panorama actual do Design em Portugal?
Há alguns anos que o tecido empresarial, incluindo as PME's, tem-se vindo a aperceber do potencial do design para criar valor acrescentado, sobretudo em tempos em que urge a diferenciação pela qualidade do serviço. Porém, ainda falta que os mesmos entendam que o design não é mera cosmética de produtos, que não importa o gosto do empresário nem o do designer mas antes a eficácia da mensagem na construção de um arquétipo e de uma identidade adequada ao produto em causa.
É necessário que os empresários comecem a diferenciar os bons dos maus projectos e a recorrer aos verdadeiros profissionais do design que são estrategos ao serviço da empresa e dotados de consciência social.
Fala-se muito de design, mas fala-se mal... O design tornou-se uma moda e uma moda em redor de um conceito muitas vezes mal entendido. É com frequência que indivíduos de diversos campos de actividade, incluindo alguns designers confundam design:
- Com estilo que se refere à forma característica de se mostrar ou evidenciar aos outros;
- Com styling, conceito oriundo dos Estados Unidos em que apenas se muda a aparência e esta se sobrepõe à função para estimular as vendas.
- Ou ainda com Kitsch, que combina características vulgares e populares, que faz imitações de má qualidade ou que, por exemplo, altera a forma como o telefone que parece um pato e, em vez de tocar, grasna.
Mas nada disto é design, pois o design trata da resolução de problemas concretos em benefício da sociedade. No design a função, a segurança, a escala humana e a estética são palavras chave com igual importância.
No entanto, é verdade que se criam inúmeros objectos inúteis para aumentar as vendas e o égo de alguns designers que, agindo como mercenários, sobrepõem o seu estilo pessoal a objectos que serão usados por terceiros.
Por outro lado, os designers têm enfrentado sobretudo concorrência desleal de autodidactas e outros diplomados de diferentes áreas que exercem como designers, aproveitando-se da falta de regulamentação e legislação sobre o sector do design.
A inexistência de uma área científica do design e a juventude da profissão em Portugal, a par da autonomia científica dos politécnicos e universidades, têm originado o surgimento de cursos de engenharia, educação, arte e arquitectura, camuflados como cursos de design... muitos outros, carecem de uma maior aproximação ao tecido empresarial.
Embora no geral a qualidade do ensino do design, em Portugal, não seja um cenário negro, é necessário mais rigor, mais especialistas nas escolas e uma lógica na rede do ensino, em Portugal.
Não me parece que a realidade profissional do design, em Portugal, seja muito pior do que ocorre no mundo, pois só agora surgem projectos associativos realmente empenhados em regulamentar a profissão. Acontece é que, em Portugal, temos um problema acrescido que é cultural - o facto de que qualquer um fazer um cartaz e passar a intitular-se designer.

2 - Relativamente ao desenvolvimento do Design noutros países quais pensa serem as tendências ou exemplos de onde poderemos retirar alguns ensinamentos?
Creio e espero que em resultado do fenómeno da globalização, as questões da identidade serão fundamentais e que teremos, sobretudo, dois tipos de aproximação. Em primeiro lugar, tenderão a surgir mais projectos que procurarão a resgatar características da história ou vernáculas, da cultura e dos valores de comunidades, regiões e países como modo de afirmação, destaque e garantia de qualidade e genuinidade.
Por outro lado, creio que se tenderá para a customização de massas, ou seja, para a personalização de produtos a uma escala individual, dentro de séries produzidas industrialmente. São exemplos a moda, o tuning, os telemóveis, os serviços telemóveis com Internet e televisão, o e-paper, os touched-screens e futuramente a nanotecnologia.
Parece-me que, nos dois casos, tenderemos a ter projectos de design pensados à escala humana que actuem como escapes e meios de orientação, num dia a dia cada vez mais urbano, frenético e repleto de horários para cumprir e onde constantemente somos bombardeados com mensagens para comprar.
Ao mesmo tempo, teremos mais projectos de design que estimulam sensações através da exploração dos diversos sentidos, associados a produtos que cada vez mais são serviços, mas também, a uma crescente necessidade pelo divertimento.

3 - Considera existirem segmentos ou nichos de mercado que poderão ser melhor abordados e trabalhados pelo Design?
Com certeza que sim. São exemplo disso, os projectos de sinalética, a publicidade exterior e as marcas portuguesas muitas vezes mal desenvolvidas pois não são feitas por designers. Repare-se que muitas vezes são arquitectos, engenheiros ou outros quem, nos municípios, aprovam a sinalética, o equipamento urbano, os locais de afixação de publicidade e o tipo de mensagens passíveis de afixar... Obviamente, é notório que não têm feito um bom trabalho pois não têm conhecimentos para o fazer, prova disso é o que podemos constatar nas ruas, todos os dias.
Por outro lado, os designers podem fazer um excelente trabalho pelas empresas portuguesas criando marcas, definindo espaços corporativos mais funcionais e competitivos, bem como, novos produtos. Recorde-se que temos quatro grandes áreas de especialização: design de ambientes (interiores, exteriores e paisagísticos); design de comunicação (gráfico e multimédia); design industrial/produto; design de moda/têxtil.Basta que os empresários apostem verdadeiramente no design, que confiem as suas empresas a bons profissionais e que não se limitem a encomendar um logótipo novo e por exemplo uma nova colecção de vestuário de forma isolada e sem coerência. Não se pode pensar que assim se cria uma marca, pois muitas vezes, para isso, é necessário alterar a estrutura da própria empresa.
Em 1908, Peter Behrens e Otto Neurath, constituindo a primeira equipa de consultores de identidade corporativa, colaboraram juntos com a firma alemã AEG (1908) originando um programa completo constituído por projectos de edifícios, fábricas, oficinas, estabelecimentos comerciais, produtos, lâmpadas industriais, serviços de chá, um logótipo, cartazes, folhetos, anúncios publicitários, catálogos; partilhando uma linguagem visual coerente e uma forte cultura de empresa. No século XXI, os designers procuram oportunidades para agir como se fez em 1908.

4 - Nesses casos, e em geral, qual pensa ser a melhor forma de transmitir a importância da intervenção do Design como elemento diferenciador e fundamental para a aquisição de vantagens competitivas?
Devo começar por referi que o design actua como valor acrescentado, como um serviço face a outros produtos que carecem de uma abordagem do design, pois adequa-se ao utilizador a diversos níveis.
Porém, uma vez que design é perceptível sem esforço, pois qualquer indivíduo sabe reconhecer qualidade. Trata-se de um processo consciente e inconsciente, simples como a escolha de uma maça retirada de um conjunto.

Ninguém tem dificuldades em reconhecer a qualidade de um equipamento Philips, AEG ou Ford, que são marcas que, desde cedo, apostam em todas as vertentes do design.
Por isso, creio que, embora não tenham consciência disso, nenhum consumidor tem problemas em entender o diferencial que pode ter o design num produto, seja ele qual for, pois não lhe implica esforço consciente. O problema reside em que, como país, saibamos o que é o design.
Continuamos a ter publicidades a automóveis que em voz off dizem algo como "mais conforto, mais segurança, mais espaço e mais design"... É que o design implica segurança, funcionalidade, conforto, adequação á escala humana ao nível físico, cultural e estético, e se assim não for não é design.
Não é o design que tem um problema em se evidenciar, mas temos sim, um problema cultural e educacional em valorizar produtos que valem pelas suas características éticas e adequadas ao Homem e não pelo preço ou pelo populismo barato.

5 -O que tem feito a sua empresa para responder às necessidades do mercado e que ferramentas tem utilizado para se actualizar?
No momento sou professor na Escola Superior de Artes Aplicadas, do Instituto Politécnico de Castelo Branco, pelo que, a questão não se aplica inteiramente.
Poderei adiantar que, nas reformulações curriculares que fizemos, aproveitámos para procurar melhorar a formação dos nossos alunos, atendendo a informações que recolhemos junto de empresas. Em projectos lectivos, criamos simulacros da realidade de ateliers de design e, nos últimos anos dos cursos de design, chegámos a realizar projectos com ou para empresas.

6 - Nos projectos que tem desenvolvido tem recorrido à utilização de estruturas modulares? Se não, porquê? Se sim, quais pensa terem sido os principais benefícios que colheu?
Sim. Em projectos como stands e embalagens creio que os sistemas modulares são os melhores, dada a sua flexibilidade de adaptação aos espaços disponíveis para armazenamento, transporte e exposição.

Daniel Raposo, Designer - 05/07/2007

 
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