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O optimismo e o abismo da Arquitectura em Portugal
Isabel Barbas_Profile

1- Como vê o panorama actual da Arquitectura em Portugal?
Entre o abismo e o optimismo. Ou seja, o Portugal que se continua a construir reflecte um défice de sensibilidade e cuidado arquitectónico preocupante. É um problema de difícil resolução visto que não depende de uma única entidade. São várias as forças e esforços que tem que se unir para melhorar o panorama arquitectónico. A vontade politica, as regras urbanísticas e legais, podem ajudar a construir um país mais harmónico e saudável, mas se não houver a valorização de uma cultura sensível ao território, à paisagem, à história, à cultura, à identidade, não se conseguirá um panorama arquitectónico rico e contemporâneo. Ou seja, eu penso que a melhoria da arquitectura passa pela melhoria da cultura de um povo. Um pais culto e informado está mais atento e será mais exigente face às transformações. É no transformar  e por inerência, na forma como se transforma, que se reflecte o estado da cultura de um povo. E aqui os arquitectos têm ou deveriam ter um papel importante, o que nem sempre acontece. Não podemos culpar apenas os clientes e os construtores e as leis que permitem que eles construam o que querem. É evidente que uma grande percentagem da nossa paisagem urbana, muito criticada pelos arquitectos, é assinada pelos mesmos... E aqui ressalta a extraordinária importância das escolas, das universidades, da formação, dos professores… Uma boa escola deveria ser suficiente para acabar com as assinaturas de maus “projectos” que minam a nossa paisagem. Deveriam formar-se arquitectos para construir o país e não só “Museu”. Todos os arquitectos deveriam estar muito “educados” e muito alerta para a imensa responsabilidade que é inscrever na paisagem contemporaneidade, porque é disso que se trata. Temos que construir para o agora e para o futuro. A arquitectura é o rosto de um país e se todos formos sensibilizados para isso com certeza esse rosto será mais harmónico e feliz. Não querendo julgar nesta breve opinião a “utopia” do projecto moderno, não posso deixar de referir como positiva essa vontade de “felicidade” na e através da arquitectura.
Sintetizando, eu acho que a arquitectura “media”, não falo da excepção, do edifício emblemático de um Siza Vieira ou Carrilho da Graça, mas sim da construção corrente, dos bairros residenciais, das zonas industriais, dos centros comerciais, das frentes marítimas, do urbanismo…deveriam ser muito mais cuidadas e os arquitectos em exercício deveriam responder muito mais seriamente e comprometidamente a estas empreitadas arquitecturais. Não podemos continuar a construir cidades sem arquitectura.
Por outro lado, ou seja, olhando com optimismo, vejo a arquitectura Portuguesa com muita saúde e até como um dos poucos exemplos da internacionalização da nossa cultura. Temos excelente arquitectura e nomes de referencia no panorama mundial.
Também tenho que salientar que os chamados “jovens arquitectos” portugueses estão a trabalhar para um Portugal mais sensível, talvez porque temos bons exemplos, mas sobretudo porque esta nova geração está a trabalhar arduamente e muitas vezes com poucas possibilidades construtivas há já muitos anos…O que mostra preserverança e atitude. É uma geração interessada, competitiva, com experiências internacionais, e que tem vindo a mostrar que sabe fazer e pensar arquitectura, resta saber se vão conseguir combater a inércia das forças instaladas.

 
2- Relativamente ao desenvolvimento da Arquitectura noutros países quais pensa serem as tendências ou exemplos de onde poderemos retirar alguns ensinamentos?
A minha experiência permite-me falar mais do “caso” espanhol. Em Espanha assistiu-se nas últimas décadas a uma pujante promoção da cultura espanhola. É aliás esta vontade de promoção, defesa e entusiasmo face aos seus costumes, língua e “produtos”, que, na minha opinião, impulsiona todas as actividades culturais e económicas nas quais está inscrita a arquitectura. Este será talvez o melhor ensinamento a retirar de Espanha: vivacidade, risco e optimismo.
Os políticos perceberam o poder “reabilitativo” da arquitectura em todas as suas valências, mas a requalificação do espaço urbano enquanto factor identitário de um país desenvolvido e competitivo passou a ser desde Bilbao um cartão de visita do País vizinho. Em todas as cidades espanholas existe um museu de excepcional arquitectura ou outro edifício emblemático que não só revitalizou uma determinada área urbana como catalizou toda uma dinâmica de investimento e desenvolvimento em torno do fenómeno “Turismo” arquitectónico.
O fenómeno “Guggenheim” em Bilbao não passou despercebido a Portugal. O Frank Gehry foi convidado para reformar o Parque Mayer em Lisboa. Como sabemos o processo ficou pelo caminho... É um facto que estas operações “plásticas” podem ser muito criticadas e sobretudo dispendiosas mas talvez valham o investimento. O espírito de reforma, entusiasmo, experimentalismo e até, atendendo ao exemplo dado, plasticidade, expandiu-se pelo país real e em cada “pueblo” podemos encontrar uma referência à arquitectura  numa espécie de manifesto à contemporaneidade, à cultura e à inovação.
 
2- Considera existirem segmentos ou nichos de mercado que poderão ser melhor abordados e trabalhados pela Arquitectura?
A arquitectura é uma “arte” tão abrangente e polivalente que haverá sempre novos “nichos” a serem explorados e até (re)inventados pela disciplina. Por exemplo agora está muito presente o tema da “ecologia” na arquitectura e, como sabemos, no mundo  (a arquitectura é sempre um reflexo deste). Este “item” suscita diferentes e acesas discussões quanto à pertinência, ou quase obrigatoriedade, do projecto reflectir e integrar todas as possibilidades “ecológicas” de forma a construir um edifício sustentável. Muitos ateliers e sobretudo os “jovens arquitectos”, têm-se debruçado sobre esta temática, tornando-a o ex libris das suas propostas arquitectónicas. Muitos prémios e concursos promovem igualmente esta pesquisa. Portanto, estamos numa época que nos pode fazer voltar à arquitectura vernacular, às sabias soluções da arquitectura tradicional e sobretudo ao “refazer”, “reconfigurar” e actualizar destas soluções construtiva na actualidade. Estes exercícios de dialogo e analise entre tempos e materiais diferentes podem e deveriam originar propostas contemporâneas que nomeiam, criticam e propõem leituras originais e integradas não só de novas tecnologias mas também, e por reflexo, de novas plasticidades, formas, espaços; em suma, o processo pelo qual toda a arquitectura deveria passar. Por isso os grandes “mestres” afirmam que a “boa” arquitectura é ecológica. Pondo de parte as polémicas, há que referir que existem equipas de jovens arquitectos a trabalhar muito bem estas relações e temática em Portugal. A titulo de exemplo posso referir o interesse demonstrado na última década, por parte de vários grupos de jovens arquitectos, pela “arquitectura de terra” ou de projectos editoriais e de divulgação de arquitecturas sustentáveis, como “a casa da vizinha não é tão verde quanto a minha”. (www.casadavizinha.eu)
Também a “luz”(iluminação), o “som” (acústica), e “conforto” (ergonomia), são “nichos“, a meu entender, que podem ser mais explorados no universo arquitectónico. Ou seja, o importante é salientar que a investigação, o aprofundar de todo e qualquer “item” arquitectónico pode servir para revitalizar e abrir novos campos de exploração construtiva, tectónica e poética, não esquecendo nunca, que a arquitectura é um todo.
 
4- Nesses casos, e em geral, qual pensa ser a melhor forma de transmitir a importância da intervenção da Arquitectura como elemento diferenciador e fundamental para a aquisição de vantagens competitivas?
Esses “nichos” podem ser explorados, investigados e desenvolvidos de forma autónoma à arquitectura, como aliás acontece.
A mais valia de integrar esta investigação na arquitectura, ou seja através de equipas que tenham um arquitecto ou um projecto a desenvolver será a de aliar conhecimentos e sensibilidades em torno de um exercício concreto que permita testar e integrar as investigações num espaço construído e por conseguinte vivido, experimentado.
 
5 - O que tem feito a sua empresa para responder às necessidades do mercado e que ferramentas tem utilizado para se actualizar?
O nosso trabalho pode servir para exemplificar a passagem de determinados “nichos”  de mercado para o campo da arquitectura e desta forma adaptar e assim desenvolver novas formas e técnicas de montagem e utilização de determinados materiais.
O nosso atelier foi formado há seis anos quando ganhamos um concurso organizado pela Câmara Municipal de Madrid para iluminar a capital no Natal. Como arquitectos, pensamos o espaço urbano, sabemos trabalhar a luz, os ritmos, os espaços; sabemos e temos que integrar distintas especialidades, estamos em permanente diálogo com o mundo real. Por conseguinte sentíamo-nos preparados para propor novas formas de iluminar o Natal - um mercado que não estava aberto à arquitectura e que nos propusemos explorar.
A melhor ferramenta de que me consigo lembrar para nos actualizarmos é sem duvida a imaginação. Esta, aliada à colaboração (técnicos e construtores experientes num determinado ramos), pode inovar. Foi com este ingrediente, ou seja criatividade, que nos lançamos no desenho de atmosferas luminosas que iriam substituir as antigas e, no nosso entender, medíocres e desactualizadas iluminações de natal. Propusemos uma nova forma de suspensão dos módulos. Em vez de bandas paralelas ao longo das Avenidas, projectamos uma retícula ortogonal e horizontal construída por cabos de aço tencionados que permitia espalhar de forma desordenada ínfimos módulos de iluminação abstractos a diferentes alturas, criando assim “campos dinâmicos de luz”. Substituímos assim a tradicional iconografia natalícia por propostas mais atmosféricas.
Com outro projecto, um Quiosque para feiras/ mercados urbanos - m.poli, que ganhou o prémio OutrosMercadus, investigamos os problemas do transporte/ montagem/ solidez/ versatilidade expositiva/ comunicação/ desmontagem, para chegar a uma solução simples e sólida do ponto de vista do “novo” e efémero agregado urbano que se cria aquando das feiras. Surgiu assim uma peça única em forma de casa monopólio, jogando no espaço urbano com diferentes possibilidades de agrupamento, sem necessidade de montagem e desmontagem, que se abre e fecha como o chassi de um carro permitindo diferentes usos e leituras. Para executar e construir esta peça, foi feita, em colaboração estreita com engenheiros electrónicos e de materiais da empresa produtora, uma maqueta - um protótipo à escala real - que permitiu testar e concretizar a ideia híbrida deste objecto. Depois de prototipado o quiosque foi produzido de forma modular 300 vezes e com distintos acabamentos exteriores o que conferiu distintas plasticidades a cada agrupamento.

6- Nos projectos que tem desenvolvido tem recorrido à utilização de estruturas modulares? Se não, porquê? Se sim, quais pensa terem sido os principais benefícios que colheu?
Temos utilizado estruturas modulares simples e complexas, ou seja, nos trabalhos acima descritos tentamos sempre que possível recorrer a uma estrutura modular adaptável a várias situações espaciais. Nestes dois casos desenhamos nós os próprios módulos que seriam repetidos em série optimizando assim gastos e tempo de execução -  os dois grandes benefícios dos módulos.
A questão do módulo está intimamente ligada ao conceito da prefabricação, e tem vindo a ser desenvolvido sobretudo a partir do modernismo aplicado à arquitectura…Com poucos exemplos de sucesso, ainda há muito para explorar neste campo. Aqui está um “nicho” que poderia ser  mais e melhor desenvolvido no campo arquitectónico.
Será na arquitectura efémera, de eventos expositivos e feriais que mais se tem explorado e aplicado as estruturas modulares.
 
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